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Etapas Caminho Espiritual

CAMINHO — ETAPAS DO CAMINHO ESPIRITUAL

A primeira fase da vida espiritual descrita por São Paulo é o caminho purificador, durante o qual a alma combate seus inimigos, liberta-se dos sentidos e prepara os caminhos de Deus: "Mas vós não haveis assim aprendido a Cristo, se é que o haveis ouvido e haveis ensinado nele, como está a verdade em Jesus: a despojar-vos do homem velho, segundo o qual foi a vossa antiga conversação, que se vicia segundo os desejos do erro. Renovai-vos, pois, no espírito do vosso entendimento, e vesti-vos do homem novo, que foi criado segundo Deus, em justiça, e em santidade de verdade" (Ef. IV, 20-24).

A segunda etapa da vida espiritual é o caminho iluminativo: a luz do Espírito Santo ilumina os que, pela , possuem Cristo em seu coração. É a doutrina de São Paulo, mas igualmente transmitida por São João: "Andai enquanto tendes a luz, crede na luz, para que não vos apanhem as trevas, porque quem caminha em trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz" (João XII, 35-36); "Deus é luz, e não há nele nenhuma treva. Se dissermos que temos sociedade com ele e andamos nas trevas, mentimos, e não seguimos a verdade. Porém, se andamos na luz, como ele mesmo está na luz, temos mutuamente sociedade, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado" (1João I, 5-7). São Paulo ensina a mesma doutrina: "Outrora éreis treva, mas agora sois luz do Senhor. Andai como filhos da luz, porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e em justiça, e em verdade" (Ef. V, 8-9). "Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos filhos da noite, nem das trevas" (1Tess. V, 5).

Enfim, a terceira etapa da vida espiritual é a união: o homem chega à plenitude do amor e do conhecimento de Deus. É, realmente, deificado e faz-se participante da natureza divina: "Como todos os dons do seu divino poder, que dizem respeito à vida, e à piedade, nos têm sido dados pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua própria glória e virtude, pelo qual nos comunicou as mui grandes e preciosas graças que tinha prometido, para que por elas sejais feitos participantes da natureza divina, fugindo da corrupção da concupiscência que há no mundo, vós outros, aplicando pois todo o vosso cuidado, ajuntai à vossa a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor de vossos irmãos, e ao amor de vossos irmãos a caridade, porque se essas coisas se acharem e abundarem em vós, elas não vos deixarão vazios, nem infrutuosos no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo" (2Pedro I, 3-8).

Essa doutrina dos três caminhos volta a ser encontrada em numerosos Pais e Doutores da Igreja. Foi ensinada por São Dionísio, o Areopagita, nas suas duas Hierarquias, e formulada de maneira decisiva por São Tomás: "Em uma primeira etapa o homem se esforça, principalmente, para se afastar do pecado e resistir à concupiscência que o arrasta para longe da caridade: essa etapa é a dos iniciantes, entre os quais é preciso nutrir e aquecer a caridade, de medo que ela se corrompa. A segunda etapa vem a seguir como aquela na qual o homem se ocupa principalmente de se adiantar para o bem: é a etapa dos progressistas, que se esforçam principalmente para aumentar a sua caridade. A terceira etapa é a do homem que se esforça por ligar-se a Deus e gozar dessa aproximação: essa etapa é própria dos perfeitos, dos que desejam morrer e estar com Cristo (Fil. I, 23); da mesma forma que acontece no movimento corporal, há, de início, um afastamento do ponto de partida, depois a aproximação do término, e, enfim, o repouso, no término uma vez conquistado" (S. Teo. II, II, q. 24, a. 9).

Na iniciação cristã, três sacramentos1 marcam essas etapas: o batismo purifica do pecado original e incorpora o crente ao Corpo místico de Cristo; a confirmação torna perfeito e confere o Espírito Santo; a comunhão une à divindade de Jesus Cristo. Não é preciso dizer que embora cada sacramento seja eficaz ex opere operato, os efeitos são, de certa forma, virtuais no crente, pois ele deverá fazê-los efetivos, "realizá-los", no curso de sua vida espiritual, segundo as etapas que indicamos e que são inteiramente tradicionais na teologia mística da Igreja. [François Chenique O IOGA ESPIRITUAL DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS]

NOTAS:
1 V. o ensinamento de São Dionísio, o Areopagita, especialmente a Hiérarchie ecclésiastique, cap. II, III e IV. Sobre os ritos da iniciação cristã e a mistagogia patrística, v. Lot-Borodine, Grâce déificante des sacrements, na Revue des sciences philosophiques et théologiques, 25, 1936, p. 328. Na Igreja ortodoxa, as três etapas são às vezes chamadas apelo, escolha e coroamento. Um abade, mártir do século VITI, São Máximo de Constantinopla, chama à primeira etapa exercício de prática, porque ela conduz os iniciantes até a perfeita destruição de seus vícios; a segunda etapa é a teoria, isto é, o conhecimento (gnosisepisteme) das verdades espirituais; a terceira etapa é a teologia, na qual o homem contempla Deus no Verbo (Logos), une-se a ele e exprime, num discurso "teológico", as verdades que contempla. Cf. Madame Cécile J. Bruyère. La Vie Spirituelle et l’oraison d'après la Sainte Écriture et la tradition monaslique, Ed. de Solesmes, 1960. p. 21; v., igualmente, F. Schuon. L’oeil du coeur. p. 173, nota 2.


Como primera etapa necesaria, uno debe remontarse al nivel de existencia más elemental, imitando al celestial Enoc, que descendió a la tierra y vivió en el nivel más bajo de la vida terrenal. Como ya hemos visto anteriormente, no hay que detenerse a medio camino. Abandonando cualquier actividad de la Razón, dejando de ejercer la facultad del pensamiento, se descubre la «animalidad» (hayawaniyya) oculta en el fondo de cualquier ser humano. Se es, en esa fase, un puro animal sin mezcla alguna de superficial humanidad. Un hombre así «está liberado del dominio de la Razón y se abandona a sus deseos naturales. Es un animal puro y simple».

En ese estado de animalidad sin mezcla, el hombre recibe cierto tipo de intuición mística, una especie particular de «revelación» (kashf). Dicha «revelación» es de la misma clase que la que poseen naturalmente los animales salvajes. Experimentan esta clase de «revelación» porque, por naturaleza, no ejercen la facultad de la Razón y, por consiguiente, no se ven estorbados por ella.

En cualquier caso, el hombre que aspira seriamente a experimentar una vez más lo que ya experimentó en su día Enoc-Elías, debe, en un primer paso, realizar completamente su animalidad. Tan completamente que, «al final, se le “revela” lo mismo que se “revela” de forma natural a todos los animales, excepto a la especie humana y a los espíritus. Sólo entonces puede estar seguro de haber realizado por completo su animalidad».

Hay dos síntomas que indican que un hombre ha alcanzado dicho grado de animalidad: el primero consiste en que experimenta realmente la «revelación» animal; el segundo, en que es incapaz de hablar. La explicación que da Ibn Arabi a estos dos síntomas, sobre todo al primero, es bastante sorprendente y extravagante, por lo menos para nuestro sentido común. Pero es difícil negar la inusitada carga de realidad que evoca en nuestras mentes. Llama la atención su realismo ya que se trata de una descripción de su propia experiencia personal como excepcional visionario.

El primer síntoma, dice, en un hombre que experimenta la kashf animal consiste en que «ve a quienes son castigados [por los ángeles] en las tumbas, y a quienes gozan de la felicidad celestial; ve vivos a los muertos, hablar a los mudos y caminar a los tullidos». Ante los ojos de ese hombre, aparecen extrañas escenas que nuestra «cabal y sana» Razón consideraría absoluta locura. Si semejante visión ha de ser considerada o no como experiencia «animal», es una cuestión sobre la cual la mente ordinaria no está en situación de emitir juicio alguno. Ibn Arabi habla aquí de su experiencia personal. Pero, por lo menos, podemos ver sin dificultad que, en la mente de un hombre que se haya liberado por completo de la dominación de la Razón natural, todas las insignificantes distinciones y diferenciaciones establecidas por ésta se desmoronan en absoluta confusión, y las cosas y acontecimientos adquieren formas nuevas y enteramente diferentes. Lo que Ibn Arabi quiere decir con todo ello es que todos los compartimentos aparentemente estancos en que la Razón humana divide la Realidad pierden su validez ontológica en esa experiencia «animal».

El segundo síntoma consiste en que un hombre se vuelve mudo e incapaz de expresarse «incluso si lo desea e intenta describir con palabras lo que ve. Esa es una señal decisiva de que ha realizado su animalidad»33. Ibn Arabi da aquí una interesante descripción de su propia experiencia en lo referente a este punto:

Una vez, tuve un discípulo que alcanzó este tipo de «revelación». Sin embargo, no guardó silencio respecto a su [experiencia]. Ello demuestra que no había realizado su animalidad [de una manera perfecta]. Cuando Dios me hizo llegar a ese estadio, realicé mi animalidad por completo. Tuve visiones y quise hablar de lo que había presenciado, pero no pude. No había diferencia real entre mí y aquéllos que son mudos por naturaleza.

Un hombre que ha recorrido el camino hasta el límite más extremo de la animalidad, si continúa su ejercicio espiritual, se elevará al estado de puro Intelecto. La Razón (‘aql) anteriormente abandonada para descender al nivel más bajo de la animalidad es un ‘aql atado y encadenado al cuerpo del hombre. Y ahora, en esta segunda fase, el hombre adquiere un ‘aql nuevo o, mejor dicho, vuelve a tomar posesión de su ‘aql abandonado, bajo una forma totalmente distinta. El nuevo ‘aql, que Ibn Arabi denomina «Intelecto puro» (‘aql muyarrad), funciona en un plano en que su actividad no puede ser obstaculizada por nada corporal o físico. El Intelecto puro no tiene relación alguna con el cuerpo y, cuando un hombre adquiere este tipo de Intelecto y ve las cosas en función de éste, hasta las más corrientes de su alrededor empiezan a revelarse ante él en su verdadera estructura ontológica.

Esta última afirmación significa, en términos de la cosmovisión de Ibn Arabi, que las cosas que nos rodean pierden su independencia a los ojos de ese hombre y revelan su auténtica naturaleza, como «fenómenos» que son de las cosas pertenecientes a la fase ontológica superior.

[Ese hombre] se ha transformado en un Intelecto puro, alejado de cualquier elemento material. Presencia cosas que son las fuentes mismas de lo que aparece en las formas naturales. Y llega a saber, por una suerte de conocimiento intuitivo, por qué y cómo las cosas de la naturaleza son como son.

En términos más concretos, ese hombre se encuentra ya en el nivel ontológico superior al de las cosas de la naturaleza: el de los Nombres divinos y los Atributos. En el lenguaje ontológico de Ibn Arabi, se halla en la fase de los «arquetipos permanentes» (ayan thabitha) y domina desde esa esfera las cosas infinitamente diversas del mundo sensible, entendiéndolas en términos de las realidades (haqá’iq) que ocultan.

Quien alcanza esta elevación espiritual es un arif o «uno que conoce [la realidad transcendental]», y su percepción debe ser considerada como un auténtico caso de dhawq o «saber inmediato». Es un hombre «completo» (tamm).

Sin embargo, como ya hemos observado anteriormente, la percepción de Enoc no constituía más que «la mitad» de la percepción de la realidad absoluta. También un hombre así es tamm, pero no llega a ser «perfecto» (kamil). Para ser kamil, debe avanzar un paso más y elevarse hasta un punto desde donde vea que todo, ya sean los «arquetipos permanentes» o las cosas de la naturaleza, incluso él mismo, que los percibe, son, al fin y al cabo, formas fenoménicas de la Esencia divina en los distintos niveles del Ser; y que, a través de todos los planos ontológicos, fluye la corriente incesante e infinita del Ser divino. Sólo cuando un hombre alcanza esta situación llega a ser un «Hombre Perfecto» (insan kamil). [Toshihiko Izutsu, Sonho Realidade]




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